Um dado assustador acaba de ganhar contornos oficiais: os casos de violência de gênero cometidos por adolescentes no Rio de Janeiro aumentaram 600% entre 2019 e 2025. O levantamento, produzido pela Vara da Infância e da Juventude, revela não apenas o crescimento vertiginoso das ocorrências, mas um fenômeno ainda mais preocupante — os agressores estão ficando cada vez mais novos. O que antes era tratado como problema de adulto chegou, de forma acelerada, às salas de aula e aos corredores das escolas.
Pesquisadores e educadores que acompanham o tema apontam um fator central nessa mudança: a disseminação da chamada machosfera, ecossistema de conteúdos digitais que glamouriza a dominação masculina, despreza os direitos das mulheres e apresenta a misoginia como identidade e pertencimento. Canais no YouTube, comunidades no Discord, perfis no TikTok e no Instagram traduzem essa ideologia em linguagem jovem, com humor e provocação, tornando-a palatável a garotos em fase de formação identitária. O resultado é que atitudes violentas passam a ser percebidas como força, não como crime.
Para a educação, o desafio é duplo. Primeiro, reconhecer que o problema existe dentro das próprias instituições — nas piadas normalizadas, nos apelidos tolerados, nas situações de assédio que ainda são varridas para debaixo do tapete com a justificativa de que "são coisas de adolescente". Segundo, construir respostas pedagógicas que vão além da punição. Projetos de letramento midiático, rodas de conversa sobre masculinidades, formação continuada de professores e integração com serviços de proteção social são caminhos que já demonstram resultados quando aplicados com consistência.
A escola não criou a machosfera, mas ela é o espaço onde seus efeitos se manifestam com mais visibilidade — e onde ainda é possível interromper o ciclo antes que ele se consolide. Ignorar os números é uma escolha. Agir sobre eles, também.